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A incrível e triste história de Tatu

12 de setembro de 2009

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Essa coluna é escrita por Marcel Albuquerque.

Feio que nem um catiço, magro que só o caniço, espinhoso que nem um ouriço: assim era nosso personagem. Um metro e sessenta e oito E MEIO. Mas mente pra ele mesmo dizendo que tem um e sessenta e nove. Pros outros, fala que tem um e setenta – que fica mais bonito – e usa tênis alto pra disfarçar. Por uma ironia profética de seus pais, ele, que de grande só tem as orelhas, chama-se Alexandre; Teve todos apelidos de baixinho: desde os clássicos “toco de amarrar jegue”, “pintor de rodapé”, “salva-vidas de aquário” até “mestre dos magos”, “fotógrafo de bola rasteira” e “mentira”, por causa das pernas curtas. Todavia, o que pegou mesmo foi “Tatu”. Primeiro por causa daquela música dos Mamonas: “…comer tatu é bom…que pena que dá dor nas costas…” e segundo porque ele morou no interior quando mais novo, lá em Seropédica – cidade com nome de erva medicinal e que só é conhecida pela universidade, que por sinal é chamada RURAL.

Diz ele que perdeu a virgindade aos 14, quando o ex-padrasto levou-o lá na Vila Mimosa. Parece que Juvenal tinha medo que o menino virasse viado porque, coitado, de tão feio não comeria menina nenhuma tão cedo. Ainda mais, segundo o velho pedreiro, porque cidade grande só tem baitola. Entretanto, o que corre na boca miúda é que a primeira vez de Tatu foi com uma cabra. Mui suspeito um porta-retrato dele com o bicho. Que porra de foto é essa pra deixar do lado da cama? Quem sabe ajuda a contar os carneirinhos.
Pra piorar a situação do moleque, ele tinha os dentes da frente separados. Inclusive, de cabelo sarará, raspava a cabeça pra ficar igual ao Ronaldo – Ronaldinho, vai. Ao menos, o capeta era bom de bola. A canela fininha costurava a pivetada toda no recreio. Podia ser bola remendada, latinha, limão, o que fosse. Era bom mesmo! Já viram até fazendo embaixadinha com coco. Quando criança, economizava o dinheiro do lanche – aqueles dois reais que davam e sobravam – porque não pegava o busão: ia do portão de casa até a escola chutando pedra. Fodia todo tênis. O mais engraçado é que ia chutando a mesma pedra. Se fosse pra estrada, olhava pr’um lado e pro outro – mais pra um do que pro outro – e trazia a “bola” de novo.

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Ah! Já ia esquecendo de comentar sobre aquele bigode ralinho e a cara comprida. Por isso, o pessoal da rua também chamava ele de Pierrot. A peça ainda usava lentes de contato azuis, que deixavam os olhos meio esbugalhados. Hum! Era o suficiente: Ronaldinho na pelada do colégio e olhinhos azuis, ainda por cima. Tirava onda pra cacete; Exageraaaaava. No baile, caozeiro que só ele, sempre que ia no banheiro voltava dizendo que pegou metade da festa.

Entretanto, meu caros, o jogo mudou pra Tatu. Ouviu falar num tal de Durateston. Como estava trabalhando numa xerox lá pelo Maracanã, ajudava a mãe em casa – disso não se pode reclamar -, e ainda juntava um trocadinho – até porque, infelizmente, estava fazendo o vestibular pela 4ª vez. Dizia que ia ser engenheiro ainda – se tem uma coisa que ele entende é de carro. Mas falemos da bomba. Mal começou a malhar e já começou a tomar. Deu efeito rápido. Seis quilos em menos de dois meses. Valia a pena, achava ele, afinal era barato, comprava por seis e trinta, ali na farmácia do pai do Chupeta, que fica na praça do colégio. Fora que era um jeito de compensar: feio, pequeno e magrelo não rolava.
E foi mais rápido que miojo. O cara cresceu que nem um touro, tava forte mesmo. Brabão. Porém, já avisava Newton, toda ação tem reação. Tatu não estava nem aí, até a hora em que o negócio dele ficou sem subir. Depois disso, parou. Deu a sorte de voltar ao normal, só que teve que gastar o sagrado dinheirinho com remédio. Fora a fila do hospital público, porque plano de saúde não cabia no salário. Enfim, conseguiu o que queria. Falava ele: “Magrinho, tô catando mulé a rodo!”.

Tava sempre na lan-house, jogando “terror” contra “CT”. Mas foi ver “qual era” a da sala de bate-papo. Nunca tinha entrado e foi conferir. Pegou o MSN de uma menina lá. Não precisou de muito esforço, ele já tinha o Orkut dela. Menina bonitinha, carinha de modelo. Tatu pegou e mandou o dele também, cheio de fotos na frente do espelho, com mais ou menos quarenta de braço sempre enfatizado – diga-se de passagem, não havia foto em que ele não estava fazendo força; Se passava por playboy. Agora ele só queria saber de gelzinho – no cabelo todo arrepiadinho e com relaxamento –, cordão de prata e tênis de mola.

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Ela morava em Mangaratiba. Meio longe, né? Sendo que Tatu nem sabia muito bem onde ficava esse raio de lugar. Tinha noção que fica perto de Angra – que ele só conhece por causa da novela – porque a garota contou. Sem grilo, o cara foi persistente; quatro meses falando com a menina sem parar. No começo, ela deu uma sumida. Essas coisas de cursinho de vestibular. O pai da garota era médico e exigia que ela fosse, já que o irmão mais velho dela tinha virado professor de lambaeróbica – bem que o Juvenal alertava sobre esse lance “pederasta”. Mas, enfim, marcaram de se ver. Marcaram encontro no shopping, pra ver algum filme. Viu a “mulé” sentada na pracinha que ficava em frente às salas de cinema e ficou todo bobo que ia chegar junto. Mas, rapaz, quando a garota levantou… Fudeu! Ela era muito grande. A cintura devia bater quase no peito do rapaz. Tsc… Aí Tatu teve que passar na casa de Chupeta pra dar um jeito. Ligou pro celular da garota e avisou que ia chegar atrasado. Deu uma desculpa toda torta. Falou com Chupeta da situação, que caiu no chão de rir – parecia que tava fazendo abdominal, de tanto que se contorcia. Porém, o “leq” era parceiro: pegou um sapato do pai sem avisar e emprestou pro Tatu. Sapato não, BOTA. Menos mal que tava frio e ele estava de calça pra tapar aquela coisa horrorosa – mas, é claro, ele não tava de casaco, pra mostrar os “quarentinha”.

Olhou no espelho e viu que ainda estava pequeno demais praquela mulher. Pegou quase todas palmilhas dos tênis do amigo e, na hora de ir embora, resolver fazer o máximo que dava: juntou jornal e colocou também. O pé quase fora do calçado e todo esmigalhado ali dentro. Foi andando até o shopping de novo, porque senão ficaria sem dinheiro. Nem demorou muito, mas chegou lá mancando. O calcanhar já estava rasgado. Teve que ir no banheiro e colocar papel higiênico pra amenizar.

Respirou fundo e foi de encontro à gigante. Sem exagero, ela tinha mais de um e oitenta. Sorte que foi de sandalinha. Mas aí ele teve que apelar pra maior falcatrua que já ouvi falar: chegou por fora do raio de visão dela e sentou do nada. Começou a conversar e ela nem reparou muito no tamanho dele – ou não ligou mesmo. Deu a grana meio amassada na mão da menina e falou pr’ela comprar as entradas, porque havia se contundido num futebol “esses dias”, supostamente. Foram ver um filme avulso, que já estava pra começar. Foi o tempo dela comprar e chamá-lo. Então, consagrou-se numa cena bizarra, correndo em direção a ela, só que pulando, meio que tentando disfarçar a altura. Nesse estado grotesco, ainda foi andando praticamente na ponta do pé.

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Infelizmente, eu não vi isso. Mas o lesado foi contar cada coisinha pro Chupeta. Por mais que haja amizade, não tinha como fugir: Chupeta espalhou pra todo mundo no colégio. Tatu nunca foi tão zoado assim na vida. Ele que sempre detestou seu apelido, agora queria ter um casco de verdade pra se esconder. Hoje, ele só sabe ser assim, de mentira. A vida dele é o prazer, o gozo. Esse desejo cotidiano de ser o que não é possível é a condenação, sem direito à fiança, de não mudar sua realidade. Sua vida é não ser si mesmo. E a gente, não muito diferente, só consegue rir.

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